Instituto Latino Americano de Sepse – Sepse em Foco - Nº 02- Junho - 2015
 
 
Entrevista internacional
“Não há milagre em sepse, mas sim investimento e educação”, diz Dr. Simon Finfer
“A taxa de mortalidade por sepse na Austrália é baixa porque nosso sistema de saúde é público e muito bom!” Foi com essa frase que o Dr. Simon Finfer concluiu uma de suas palestras no XII Fórum Internacional de Sepse, que foi realizado nos dias 28 e 29 de maio, em São Paulo.
As estatísticas de 18% de taxa de mortalidade por sepse vêm de dados internos das UTIs australianas e, de acordo com o médico, também se deve à grande disponibilidade de leitos nas unidades de terapia intensiva do país. “Eu trabalhei na Europa, na América do Norte e visitei muitos países ao redor do mundo. Acredito que a Austrália tenha um sistema de saúde muito bom porque temos hospitais de qualidade, financiados pelo governo, e todos no país têm acesso ao sistema de saúde”, explicou Dr. Simon.

De acordo com o médico, como os australianos não precisam pagar pelo atendimento médico acabam procurando o serviço mais rapidamente, o que faz muita diferença para uma resposta rápida no caso de sepse. Além disso, o país tem um sistema de ambulâncias de alta qualidade, que consegue levar os pacientes rapidamente ao hospital, além de profissionais treinados para reconhecer e iniciar o tratamento da sepse nas primeiras horas.

A dificuldade no caso da sepse continua sendo sua identificação. “É fácil ter um diagnóstico de câncer porque você tem a análise do tecido. O patologista pode olhar e afirmar ‘isso é câncer’. Com sepse, você diz ‘eu sei que esta pessoa tem sepse, mas não tenho exames positivos, não tenho um exame de sangue, raio-X’... de alguma maneira, em um primeiro momento, é um diagnóstico clínico”.

Para vencer essa dificuldade, existem diversos treinamentos realizados nos hospitais australianos voltados para toda a equipe multidisciplinar. “Em Sidney, há um programa chamado “Sepse Mata”, que tem como alvo aumentar a vigilância, identificar as pessoas com sepse assim que eles chegam ao departamento de emergência e colocá-los rapidamente em tratamento; esse programa acompanha o paciente até mesmo depois de sua saída do hospital”.

Dr. Simon também fez questão de ressaltar que, como a equipe trabalha diariamente junta, os treinamentos são realizados tanto para os médicos quanto para os enfermeiros, ao mesmo tempo. “Nós trabalhamos como uma equipe. Então, temos que treinar como uma equipe”.

Explicou também que uma das mudanças tomadas nas emergências de seu país e que teve um excelente resultado foi a troca dos mapas de observação que os enfermeiros preenchem quando fazem a triagem do paciente. No modelo antigo, os profissionais anotavam num papel em branco a pressão arterial e frequência cardíaca do paciente e, mesmo que notassem alguns sinais de alerta, como não tinham parâmetros definidos, ficavam constrangidos em acionar a equipe médica, porque, muitas vezes, o paciente aparentava estar bem.

Com a mudança, foi implantado um gráfico impresso em cores diferentes, com parâmetros estabelecidos, no qual o profissional apenas faz um circulo em torno da escala correspondente. Na região em que a pressão arterial é normal, o gráfico é em preto e branco. Na que a pressão arterial é um pouco mais alta ou mais baixa que o normal, ele tem uma coloração amarela, o que significa que o enfermeiro precisa chamar o médico imediatamente. Já na região que corresponde à pressão arterial muito mais alta ou muito mais baixa, ele tem a cor vermelha, para que o profissional da triagem acione o time de resposta rápida.

“Esse modelo já faz parte do protocolo de todos os hospitais. Dessa forma, mesmo que o enfermeiro venha de outra instituição, já está habituado a esse padrão”. São medidas que não custam muito e podem ser facilmente implementadas.

Quando questionado sobre o que poderia ser feito no Brasil para melhorar nossos índices de mortalidade por sepse, o Dr. Simon foi categórico. “Não vou dizer às pessoas no Brasil como consertar o sistema de saúde brasileiro porque não sei muito a respeito dele. Mas acredito que vocês precisam colocar esforços para convencer o governo a oferecer um sistema de saúde mais igualitário. Não se trata apenas de dinheiro”.
   
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