Instituto Latino Americano de Sepse – Sepse em Foco - Nº 01- Março - 2015
 
 
Sepse no mundo
Notícias de Bruxelas – o destaque para a sepse esse ano
Algumas oportunidades são impares. Poder discutir um determinado problema, com pessoas de alto nível, produtivas e focadas no mesmo assunto, dentro de uma sala fechada, durante dois dias e meio, onde todos os 22 presentes são palestrantes e ouvintes ao mesmo tempo, com tempo dedicado à discussão pormenorizada de cada assunto é um privilégio. Não se deixa a sala. Todos juntos, ouvindo e contribuindo.
O clima, amigável, é profícuo. Surgem novas ideias, novos projetos, novas parcerias. Assim foi a mesa redonda “Reducing the global burden of sepsis – developing a roadmap”, encontro envolvendo entre 20 e 30 especialistas, precedendo o maior encontro de terapia intensiva do mundo, o International Symposium of Intensive Care and Emergency Medicine – ISICEM, em Bruxelas.

Participar dessa mesa, uma iniciativa conjunta do 35º ISICEM e do International Sepsis forum, foi uma oportunidade ímpar em termos de aprendizado e convivência com outros colegas focados na questão global da sepse.

Os resultados das discussões foram apresentados na sessão plenária do ISICEM. Aqueles que lá estiveram puderam ouvir dos coordenadores Simon Finfer e Steven Opal um resumo de mais de 20 horas de reunião em 15 minutos. Aqui, tem 1000 palavras, portanto sem grandes chances de sucesso, tentarei transmitir um pouco do que foi ali colocado.

Um dos aspectos mais interessantes foi a presença de especialistas vindos de todos os continentes, incluindo representantes de países de recursos limitados. Fora do eixo Europa-Estados Unidos, o encontro contou com a participação de representante da China, Índia, Quênia e do Brasil.

Um dos temas mais abordados foi o desconhecimento da real incidência de sepse. Os dados atuais se baseiam em estudos realizados apenas em países de primeiro mundo. Foi discutida uma metanálise, ainda não publicada, do grupo do Konrad Keinhart, que estimou a incidência global de sepse em 330 casos para cada 100 mil habitantes. Em consequência, o número estimado de casos no mundo seria de 23.4 milhões. Entretanto, esse número deve estar subestimado, pois não há dados provenientes de países de recursos limitados, onde se espera uma incidência maior.

A dificuldade na obtenção de dados nesses locais foi pontuada por Prawin Amin e Bin Du, da Índia e China. Como exemplo dessa dificuldade, Robert Snow, do Quênia, apontou para inconsistências nos dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) no tocante à incidência de malária na África. Parte dos dados é proveniente das chamadas necropsias verbais, onde se pergunta para a família como a criança morreu, assinalando malária, caso tenha havido febre.

Tivemos a oportunidade de mostrar que o Brasil começa a produzir dados mais consistentes com o recente estudo publicado analisando os atestados de óbito do grupo do Hospital Sírio Libanês e os dados do Instituto Latino Americano de Sepse, com o estudo SPREAD, e os resultados do processo de implementação de protocolos de sepse nesses últimos dez anos, ambos ainda não publicados.

Niranjan Kissoon, canadense reconhecido por suas ações no combate à mortalidade por sepse em crianças de países com recursos limitados, mostrou como crianças de menos de um ano têm até 80% de chance de óbito após a morte da mãe, enfatizando como parte das ações de combate à sepse a redução de mortalidade materna.

Outra limitação para a determinação da incidência é o fato da maior parte das informações, hoje, ser proveniente de estudos analisando dados hospitalares, não considerando nas estimativas de incidência os dados de pacientes que são tratados sem internação hospitalar. Além disso, esses dados baseiam-se principalmente em pacientes admitidos em unidades de terapia intensiva. Nos estudos com base em registros hospitalares, basicamente feitos em países desenvolvidos, a mudança de prática de codificação pode afetar a estimativa de incidência e mortalidade. Assim, embora seja claro hoje o aumento na incidência de sepse, questiona-se a razão desse aumento. É possível que haja aumento real, mas existe também maior notificação de casos menos graves em decorrência do aumento da percepção.

Notificar casos menos graves, com menor risco de óbito, poderia levar a percepção que existe redução de mortalidade. Em contraposição a essa percepção, foi pontuado que existem diversos estudos clínicos demonstrando clara redução da mortalidade ao longo dos últimos anos. O impacto dessa redução de mortalidade na morbidade após alta hospitalar também foi discutido pelo Derek Angus. Esse fenômeno, característico dos países mais desenvolvidos, onde a redução de mortalidade é mais visível, é responsável por aumentar o número de pacientes com sequelas, tanto em termos de distúrbios cognitivos como físicos.

Um dos problemas levantados foi a ausência da sepse como causa de morte dentro do projeto Global Burden of Disease Report (GBDR). Esse projeto divulga periodicamente as causas de mortalidade em centenas de países, entretanto, as doenças infecciosas não são agrupadas dentro do conceito de sepse, o que dilui o seu impacto global. Numa discussão bastante produtiva, o representante do GBDR, Moshen Nagavi, apresentou alternativas para solucionar essa questão.

Foi amplamente pontuada a necessidade de aumentar a percepção sobre sepse entre leigos e profissionais de saúde. Como exemplo, tivemos a exposição de Didier Pitter, responsável pela campanha de lavagem das mãos da ONU. Nesse contexto, foram apresentados os esforços do grupo Global Sepsis Alliance (GSA), no sentido de criar uma força tarefa, e aliados em diversos países do mundo, almejando obter o reconhecimento por parte da ONU do Dia Mundial da Sepse.

Outros aspectos foram igualmente abordados, como a importância do crescimento da resistência bacteriana, o impacto de mudanças climáticas globais nessa resistência e as diferenças entre os países no tocante à incidência de infecções associadas à assistência a saúde também mereceu discussão. Também discutimos as dificuldades de se fazer estudos clínicos em pacientes sépticos, dada a grande variabilidade fenotípica. Uma excelente apresentação da Kathy Rowan pontuou as principais falhas que ainda temos que resolver.

Ao final do encontro, ficou claro que existem diversos problemas a serem combatidos. A necessidade de mais dados epidemiológicos, a importância de aumentar a conscientização por meio de campanhas mundiais de grande alcance, o foco na redução de mortalidade em países de recursos limitados e na redução de mortes maternas, além de melhorar nossa capacidade de conduzir estudos clínicos que mostrem alternativas de tratamento voltadas para as diferentes realidades ao redor do mundo. Ou seja, enormes desafios a nossa frente. Vamos à luta!

Dra. Flávia Ribeiro Machado, coordenadora geral do ILAS
   
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