Hospital Cassems de Campo Grande é o primeiro do Estado a implementar protocolo contra Sepse

Na noite da última quinta-feira (24), o corpo clínico do Hospital Cassems de Campo Grande participou do lançamento do Protocolo de Sepse da Unidade Hospitalar. A médica Flávia Machado, que é coordenadora geral do Instituto Latino Americano de Sepse (Ilas) e responsável pelo protocolo, falou ao corpo clínico sobre a importância de garantir o aperfeiçoamento da qualidade assistencial ao paciente séptico.

De acordo com a Dra. Flávia, a Sepse é uma infecção generalizada e é responsável por cerca de 50% dos casos de morte nas UTIs dos hospitais brasileiros.

“A Sepse é uma das principais causas de morte no nosso país, então, discutimos como deve ser o atendimento nas primeiras horas, que são as mais importantes para termos mais chances de salvar o paciente. É evidente na literatura científica que os hospitais que implementam o protocolo gerenciado por Sepse consegue reduzir a mortalidade. Hoje, a mortalidade por Sepse nas UTIs brasileiras está em entre 50% a 55% e, com certeza, essa porcentagem é muito elevada, mas quando você regulamenta como vai prestar o atendimento, quando você treina a sua equipe para aquelas etapas você consegue diminuir essa mortalidade”, explica Flávia.

A diretora técnica do Hospital Cassems de Campo Grande, Priscila Alexandrino, destaca que a Unidade Hospitalar da Caixa dos Servidores da Capital é a primeira a receber o selo do Ilas.

“O Hospital Cassems aqui de Campo Grande será o primeiro de Mato Grosso do Sul a ter o selo do Ilas. Alguns hospitais de outros Estados brasileiros já têm o selo, mas no nosso Estado, será o pioneiro. O protocolo é seguido desde a recepção do paciente, na triagem do enfermeiro, se classificado como risco ele vai ser identificado como paciente com Sepse, que é uma infecção grave, e vai ser passado ao médico com essa informação. O paciente que chegar com algum sinal de infecção mais grave vai ser rapidamente atendido e o objetivo é diminuir a mortalidade”, afirma a diretora.

Para o diretor de Unidades Hospitalares da Caixa dos Servidores, Flávio Stival, o Hospital Cassems de Campo Grande se destaca pelo pioneirismo, seja na parte estrutural, ou pelos métodos de atendimento.

“Desde que foi concebida esta estrutura, fomos pioneiros no modelo construtivo, nos métodos de atendimento, na humanização do atendimento aos pacientes que nos procuram e não poderia ser diferente na assistência a saúde. Este protocolo de Sepse é extremamente importante, porque estudos mostram que se você tiver um diagnóstico mais rápido do paciente quando ele chega ao pronto socorro, quando você toma uma atitude diferente, você consegue salvar vidas. Esse é o nosso objetivo principal, atender da melhor forma, salvando pessoas e diminuindo assim o número de mortalidade que existe não só no nosso estado, mas em todo o país”, pontua Stival.

O presidente da Cassems, Ricardo Ayache, acredita que a implementação do protocolo de Sepse vem ao encontro dos objetivos da Caixa dos Servidores que é oferecer o melhor atendimento sempre.

“A Sepse é um dos maiores fatores que fazem vítimas nos leitos de hospitais do país. Por isso, todo paciente que chegar ao nosso hospital com algum sinal de infecção mais grave será rapidamente atendido com uma série de procedimentos previstos pelo protocolo. Nosso objetivo sempre será oferecer o melhor atendimento e com o diagnóstico mais preciso”, finaliza Ayache.

 

Fonte: A Crítica

Infecção: sim ou não?

A mais prestigiosa revista médica do mundo, o New England Journal of Medicine, recusa anualmente centenas de artigos de qualidade por total falta de espaço. A Dra. Flavia Machado, do Departamento de Anestesia da USP, nos deu um presente de Natal em 2016. Seu artigo sobre os dilemas do trabalho do médico de CTI retrata uma realidade mundial.

Todos os dias, em todo mundo, os médicos intensivistas têm que fazer escolhas. Quando dilemas técnicos e éticos se associam a problemas sociais, pobreza e desigualdade, é chocante.

Já vive esse dilema.

A quem devo dar a última vaga existente: ao João, um jovem com traumatismo craniano que acaba de chegar à emergência, vindo transferido do terceiro hospital? ao Manuel, o vovozinho que acaba de ser submetido a uma grande cirurgia que removeu metade do seu fígado?  à Julinha, sim aquela meninha de olhos amendoados e grandes bochechas, que precisa ser reinternada por mais uma crise de asma, ou obedecer as duas ordens judiciais expedidas para pacientes, não menos graves, que aguardam uma chance para viver. A pobreza e a desigualdade, no Brasil, são chocantes.

Alguém, no final, conseguira essa última vaga.

O CTI é um local no qual, em geral, um quarto a um terço dos pacientes desenvolvem infecção grave (septicemia) na admissão ou nos dias subsequentes. A taxa de mortalidade relacionada à sepse está em torno de 30%.

A infecção hospitalar é a maior ameaça à segurança dos pacientes, em todo mundo.

No Rio de Janeiro, um estado falido, há no Instituto de Cardiologia do Estado, uma grave denuncia de que estão ocorrendo óbitos decorrentes de infecção em número além do esperado.

Há diversos aspectos a serem considerados, mas a falta de infraestrutura facilita sua disseminação.

Na sepse, à medida que o comprometimento sistêmico avança, diminuiu a chance do paciente sobreviver. Diagnóstico e tratamento precoces salvam vidas. Diagnósticos e tratamento tardios tornam-se ineficazes. Na sepse, como no infarto ou no acidente vascular cerebral (ou derrame), tempo é vida.

Para diminuir o número de pessoas que morrem com sepse é importante preveni-la e, uma vez presente, que o diagnóstico e o tratamento sejam feitos o mais rápido possível. É preciso diminuir o tempo entre o início dos sintomas e o primeiro atendimento médico; precisamos trabalhar com a equipe multiprofissional de saúde para que o atendimento seja feito de forma coordenada e rápida. A lei determina que todo hospital deve ter uma Comissão de Infecção Hospitalar e os dados devem ser disponibilizados, para dar transparência e aprimorar o atendimento.

O médicos têm que proteger a vida. Quem faz denuncia leviana deve ser punido.

Médicos sérios que administram buscam o melhor para proteger o maior número possível de vidas. Sem transparência na análise da causa da mortalidade hospitalar não há medicina nem seriedade.

fonte: Noblat

Sem leitos de UTI, quem os médicos devem salvar?

“De todas as formas de desigualdade, a injustiça na saúde é a mais chocante e desumana.” 

A escolha da frase do líder Martin Luther King Jr. não é mero detalhe no artigo que a médica Flávia Machado publicou na edição de ontem do The New England Journal of Medicine. É a mais perfeita tradução da realidade que ela enfrenta numa das unidades de terapia intensiva (UTI) do Hospital São Paulo, na capital paulista.

O relato de Flávia dá a justa medida da precariedade enfrentada pelos médicos que tentam fazer o melhor num cenário de progressivo sucateamento da saúde pública. Se para os profissionais o dilema é moral, para os pacientes é questão de vida ou morte.

São 7 horas da manhã e, mais uma vez, precisamos decidir quem ocupará um leito na unidade de terapia intensiva (UTI) depois de uma cirurgia eletiva. Uma avó de 55 anos com câncer de intestino? Um idoso com metástase no fígado? Uma jovem que sente dor e precisa de cirurgia numa articulação para continuar a trabalhar e sustentar a família?

Deveríamos escolher ou recusar os pacientes que têm câncer? Deveríamos fazer escolhas baseadas na idade? Na qualidade de vida prévia? Ou no impacto social, se, por exemplo, o doente tem quatro crianças para criar? Devemos oferecer o leito a quem já o negamos antes? Ou devemos simplesmente deixar de brincar de Deus e conceder a vaga a qualquer pessoa que tenha pedido antes?

Escolhas – por vezes, trágicas – são feitas. “Na maioria dos dias alguém fica sem leito”, me disse Flávia. Ela não trabalha num hospital perdido no meio do sertão no estado mais pobre do país. Pelo contrário. Flávia dirige o setor de terapia intensiva da disciplina de anestesiologia da Escola Paulista de Medicina, uma instituição de referência ligada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

>> Artigo completo de Flávia Machado publicado no The New England Journal of Medicine

“Os frequentes cortes de verba nos hospitais federais pioram a qualidade do nosso atendimento”, diz ela. “Muitas vezes, um paciente da UTI está pronto para receber alta e liberar o leito, mas não há lugar para ele em outra ala do hospital.”

O problema não se resume às instituições federais. Um estudo do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), publicado com exclusividade por esta coluna, revela que pacientes graves esperam até dois dias por um leito de UTI em São Paulo. Doentes que não conseguem respirar sozinhos e precisam de entubação são acomodados nos leitos de retaguarda dos pronto-socorros.

“Isso é gravíssimo porque o doente está numa situação clínica instável e precisa de atendimento constante”, diz o psiquiatra Mauro Aranha, presidente do Cremesp. “Por lei, o paciente só pode ficar 24 horas no pronto-socorro à espera de vaga na UTI.”

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A crise na saúde, com subfinanciamento em todos os níveis de atendimento, motivou o Cremesp a realizar o estudo. Diretores clínicos de 15 hospitais públicos ou filantrópicos (confira a lista abaixo) relataram os problemas vividos em suas instituições, com a condição de que não fossem reveladas quais deficiências ocorrem em quais hospitais.

As principais queixas dos direitos clínicos:
A taxa de ocupação nos pronto-socorros é superior a 100%
• Os leitos que seriam dedicados à observação se transformam em leitos improvisados de UTI
• Há dificuldade para conseguir vaga para cirurgias eletivas, principalmente ortopédicas, com demora de três a quatro semanas para o paciente ser operado
Faltam vagas para cirurgias especializadas de urgência (como as neurológicas e vasculares ou os traumas cranioencefálicos)
• Na área clínica, há demanda reprimida por algumas especialidades, como endocrinologia
Há dificuldade para compra de implantes para realizar procedimentos, principalmente de mama, quadril, joelho e coluna

Os hospitais que participaram do levantamento:
• Casa da Saúde Santa Marcelina
• Conjunto Hospitalar do Mandaqui
• Hospital Central da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo
• Hospital do Servidor Público Estadual Francisco Morato de Oliveira
• Hospital do Servidor Público Municipal
• Hospital Geral de Taipas
• Hospital Geral de Vila Nova Cachoeirinha
• Hospital Ipiranga
• Hospital Municipal Dr. Arthur Ribeiro de Saboya (Jabaquara)
• Hospital Municipal de Campo Limpo
• Hospital Municipal Professor Waldomiro de Paula
• Hospital São Paulo (Unifesp)
• Hospital Universitário da USP
• Hospital Municipal Professor Dr. Alípio Correa Neto
• Hospital Regional Sul

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O que as autoridades têm a dizer? O secretário municipal de saúde, Alexandre Padilha, participou de uma das reuniões do Cremesp. Disse que vai repassar as queixas à equipe do prefeito eleito João Doria, que assume em janeiro. “Há déficit de 1.000 leitos na cidade de São Paulo, que ficou dez anos sem abrir um hospital municipal”, disse Padilha na reunião.

O secretário estadual David Uip não foi a nenhuma das reuniões. Na última delas, uma advogada enviada pela Pasta ouviu os relatos e disse que a Secretaria Estadual de Saúde está disposta a conversar com os profissionais para melhorar as condições dos hospitais.

Gostaria de encerrar meu último texto de 2016 com uma mensagem de esperança. Não deu. Só posso agradecer a valorosa companhia de cada um de vocês e trabalhar sempre pela redução da mais chocante e desumana forma de desigualdade.

 

Fonte: Época